MUDANÇA PARA O VÔO
Luis Carlinhos gravou um disco à altura de seu carisma. Apesar de novo para o mercado nacional, é um artista conhecido na cena musical do Rio, daqueles que estão na batalha independente, nas casas noturnas (e conhecido, também, pelo jeito tranqüilo e tipicamente carioca, como uma corrida à tarde em volta da Lagoa, ou um banho de cachoeira num Rio que não sei se ainda existe). Mas não importa: Luis Carlinhos está aí com um trabalho que merece ser ouvido – num mundo e num momento tais em que é impossível saber de todas as novidades. Ele já foi da banda Dread Lion (do hit “Oh, chuva”), faz parte há cinco anos do elenco da peça “Cócegas”, de Ingrid Guimarães e Heloísa Perissé, lançou o primeiro solo “Rapa da Panela” em 2005, toca com mais três parceiros talentosos (Mauricio Baia, Rogê e Gabriel Moura) o projeto 4 Cabeça e agora arremessa em nossa direção o álbum Muda. Para essa empreitada, reuniu um time de feras (Walter Villaça, guitarras, Sacha Ambak teclados, Siri, percussão e o próprio assumiu os violões) e mandou ver. De cara, ressalta logo o fato de que na formação da banda de gravação não há nem baixo, nem bateria (na verdade, rolou uma bateria desmembrada na percussão). O que, diga-se, em nada prejudicou a cozinha da banda, como pode ser comprovado em músicas como “Solto pelo ar” e “Te quero”, esta pronta e acabada para fazer sucesso em pistas de gafieira e aulas de dança de salão. O disco inicia com duas das melhores: “Desligar você” (de Luís Carlinhos / Maurício Baia / Walter Villaça), e a já citada “Solto pelo ar” (Luís Carlinhos / André Gardel / Mauricio Baia). Na primeira, a pretexto de achar o “botãozinho onde desliga você”, Luís Carlinhos canta uma delicada canção de ninar, tecida numa ambiência etérea, criada pelas texturas dos teclados de Sacha Ambak e pela guitarra sutil de Walter Vilaça, que vai climaticamente das ondas do Havaí às areias da Joatinga, terminando tudo em cama macia e lençóis limpos: “Até ele sumir de todo / Até você dormir de vez”. Na segunda, o suíngue é irresistível. “ ‘Se’ só solto pelo ar / Se não o ‘se’ se perde solto pelo ar.” Apesar da esperança da letra (“Se não rega todo dia / A flor do amor não cresce” ), a composição não patina, o ritmo pulsante da percussão joga a música para outro lado, e a transforma num dos destaques do disco. A terceira é “Chame-chame” (Luís Carlinhos), música aroma PUC, jovem, violão na fogueira, luau de praia. “Não me chame de sonhador / Só porque quero seu amor”. Luís Carlinhos emenda com “Toró” (Luís Carlinhos / Gabriel Pondé), uma bela canção bluesy, embalada pelo piano pop delicioso de Sacha e por panelas, escorredores, balde e bacia comandados por Siri, de letra esperta (“Desfaz o nó / Ao seu redor / O céu vai ficar azul”) e ótima melodia. A quinta faixa é a também já citada “Te quero” (Luís Carlinhos / João Suplicy). A música começa sambando na Lapa, dá um rodopio, pega passagem, via salsa, para Cuba e a guitarra ‘meio baixo’ de Walter Villaça brilha – uma guitarra barítono, aliás bastante presente no álbum como pode ser comprovado na faixa seguinte. Na sexta canção, “Visão” (Luís Carlinhos / André Gardel), a letra social (“A urgência dos amantes / A calma do artesão / o brilho dos diamantes / A dança da solidão”) e os traços orientais, estes guiados por uma tabla, se cruzam com o Clube de Esquina de Lô Borges e temos a sensação de que um filme passa pela frente – é uma canção visual. “Carnaval do prazer”, por sua vez, é a música mais triste do disco. Voz e violão em chamas: “Deixei você ir / Deixei você partir / Meu coração em mil pedaços / Depois ainda vi / Você se confundir / Na multidão em novos laços”. E mais: “Vi você / Descer pelo ralo / Passar no gargalo / Brincar pra valer / Vi você / Viver tudo isso / Com o compromisso / De me esquecer”. Com o auxílio de uma tuba esfuziante, o clima muda com “Lugar” (Luís Carlinhos / André Gardel), que lembra vagamente a sonoridade de “O Calhambeque”, Jovem Guarda, com uma letra que tem um quê político-espacial: “O lugar comum vira incomum / Pelo modo como ele é tratado / O lugar vazio, o lugar nenhum / Guarda sempre o maior achado”. Já “Pousando” (Luís Carlinhos / André Gardel / Mauricio Baia), apresenta letra caprichada, poética, trabalhada: “Dentro de um velho aeroplano / O amor está pousando / Todos fazem muitos planos / Estratégias de tirano / Pura entrega sem engano / Seminu, quase sem panos / O mais livre americano / Demasiado humano / É só pele, carne, osso, tutano / Selvagem, rural, urbano / Tão delicado, tão insano / O amor está pousando”. E a música não deixa a peteca cair – boa pegada, percussiva, valorizada pelo violão folk de Villaça. Em “Aproveita o vento” (Luís Carlinhos / André Gardel), feita no Líbano, numa época de saltimbanco internacional, uma lufada de otimismo e positividade: “Aproveita o vento / E muda essa cara / De poucos amigos / Deixa a nuvem negra passar / Que o sol derrama prata sobre o mar”. Música de viagem, dia lindo, velas se abrindo. Música solar para gaivotas, a medida certa para voar. E, por fim, “Muda” (Luís Carlinhos / André Gardel), a faixa-título. “O estilo muda o traço / A fome, a fé / A ginga muda o passo / O sapato, o pé”. Canção reflexiva, que termina com uma espécie de marcha marcial. Parece ser emblemática: é agora – ou vai ou racha. Para mudar, permanecer o mesmo, só que melhor. A mente muda o homem. Em seu segundo disco solo, produzido por ele mesmo e Walter Villaça, co-produzido por Siri, Luís Carlinhos canta com segurança as composições feitas com seus parceiros, André Gardel principalmente. O bom jogador do torneio de futebol da MTV nos idos dos anos 90, o Samambaia (não sei se ele vai gostar que eu diga isso), amadureceu. Com “Muda”, Luís Carlinhos está pronto para maiores vôos. Mauro Santa Cecília Fotos em alta resolução Para salvar as imagens, clique na foto desejada, aguarde a nova janela aparecer, e clique com o botão direito do mouse sobre a imagem, depois escolha a opção salvar imagem como.
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